Dentre os poemas de Da Costa e Silva poderia-se destacar poemas pertencentes a programas comumente analisados, porém fazer-se-á nesta análise uma investigação sobre características peculiares ao poeta, tais como: seu aspecto impressionista, a sua relação com a religião pagã e sua poética melopeica, por esta fazer parte do seu plano primário.
O poema a ser analisado intitula-se "Sol no Mar", pertencendo ao programa de quatro poemas "Sugestões da Luz". A partir daí, já percebe-se uma certa característica impressionista, movimento originado na pintura que tinha como práxis criar programas de pinturas de um mesmo cenário em situações distintas para evidenciar-se as diferentes impressões que poderiam ser causadas de um mesmo local. Da Costa e Silva, porém, não busca o mesmo cenário local, mas o mesmo cenário referente ao sol, construindo imagens cromáticas das impressões que o sol pode causar refletindo-se em diferentes ambientes.
No poema, vê-se nas cinco primeiras estrofes o cuidado para construir imagens de um cenário no qual as cores estejam bem definidas e ao mesmo tempo refletidas sob a luz do sol (para os prismas do olhar/De um verde estranho, furta-cor/Irisada de prata/Espelhos de esmeralda/No verde o azul da imensidão). Se compararmos estes versos citados com os versos "água batendo de encontro ao cais/aos reflexos do sol e aos rumores do vento" teremos uma alusão imagética, quase que idêntica, à obra do impressionista francês Claude Monet "Impressão, nascer do sol". Sem dúvida, a preocupação do poeta em separar as cores, colocá-las em evidência juntamente às luzes do sol e descrever rigorosamente o cenário dão à sua poética um aspecto fanopéico, isto é, cuidado técnico para construir imagens claras por meio das palavras, uso de adjetivos e descrições bem definidas, mesmo que estes intentos sejam secundários à sua obra.
Um segundo aspecto a se destacar em seu poema e na sua obra é a alusão à religião profana, a qual possui vários deuses, como se cada um destes representasse a divindade de um aspecto da natureza. Além disso, na religião pagã o humano é mais que um ser dissociado da natureza, ele é uma extensão dela. Nos versos "Eu cismo na ambição que errou sobre essas ondas/Sigo as velas que vão" há a subjetivação explícita do poeta, algo raro aos autores parnasianos, mas feito neste poema para mostrar a relação do homem coma natureza, como se ele estivesse integrado ao ambiente e sentisse as mesmas sensações que a natureza. Os versos "Ictiossauros, leviatãs/Encantas Ofirs, misteriosos Golcondas" mostram mais ainda essa alusão a outros deuses pagãos.
Quanto ao plano melopeico, ou seja, a musicalidade, temos o poema em versos clássicos e frequentemente vê-se a preocupação em espelhar os versos e as próprias estrofes, seja por meio da repetição de fonemas ou por meio das rimas (As ondas vão e vêm, ao léu/Flutíssono, fulgura, a mercê da maré). Nos versos citados, há casos em que há recorrência de assonância entre um fonema, e em outros casos, entre dois fonemas, algo que aumenta mais ainda a musicalidade do poema. Com certeza, não há de se negar que a musicalidade pertence ao plano primário da poética dacostiana.
